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Gato Mago

Gato Mago ¡Arre, que não podia mais! O pobre Mago saíra das ondas sem saber quem era, para onde ia, nem como lá chegara. Desembarcou numa praia perto da cidade e, ao sair do mar, sentiu a areia lamacenta nas suas patas e todo o peso do seu pelo molhado. ¡Arre, que não podia mais! O pobre gato quase rastejava. Não recordava o porquê de tantos males terem recaído sobre si. Naquele momento, ansiava conseguir voltar a casa. Não demorou muito até que encontrasse a moradia de um pescador que, depois de alimentá-lo, o despediu. As ruas estavam escuras. O vento frio soprava forte. Mago correu para o centro da cidade sem ter noção do tempo. Procurava calor na madrugada, porém em vão. A cidade estava vazia e calada. Apenas a lua a iluminava. De repente, notou que o luar e a sequência da altura dos prédios eram cada vez menores, deixando-o à mercê dos seus outros sentidos. Foi então que descobriu um lugar que lhe pareceu confortável para se deitar. O sítio era gélido, levemente incli...

O anel do Cabeça de Alho Xoxo

Na ocasião em que o, até então, Paulo, perdeu o anel e ganhou o nome de Cabeça de Alho Xoxo, estava eu presente e sei contar tudo. Não sei como a notícia passou de boca em boca em cinco minutos. Era a tia a ligar para a sobrinha, a sobrinha a ligar à amiga, a amiga ao cunhado, sucessivamente, ¡um ‘telefone estragado’ sem fim! Só se ouvia dizer no bairro que o carteiro tinha perdido o anel de ouro. Paulo, por ser quem entregava as cartas no Beco das Sardinheiras, de tão popular que era, parava em todas as casas e punha a conversa em dia. ¡O anel podia estar em qualquer lado! ¡Para além de ser um anel tão pequeno que caberia no meu dedo mindinho do pé! O bairro foi revisto de ponta a ponta. Supondo que tivesse sido furtado, o carteiro convocou o beco para discutir o assunto. Enquanto o sujeito falava, só se ouvia: - ¡Tanto pexi no mar e nós aqui atrás de sardinhas! O Manecas e o Mota Cavaleiro, que tinham acabado de chegar e não sabiam o sucedido, ao verem aquela mul...

Plena liberdade invernal

1. Primavera Saímos dos cuidados paliativos. Ela tinha me pedido para que a levasse para o parque próximo do hospital. Nele, brincara muito na sua infância. Por ele, nos últimos tempos passámos a morar na casa em que vivia quando era menina. Por ele, mudámos de hospital, para que ela pudesse abandonar o corpo num sítio onde fora tão feliz. A desesperança já a tinha consumido. Lentamente descemos as escadas e parámos de frente ao abundante verde. O sol brilhava sobre o prédio do hospital atrás de nós; brilhava sobre as árvores, flores e relva que víamos. O vento soprava levemente. Tudo se movia. Víamos a branca luz do sol, no meio do céu azul, sobre as laranjeiras, as verdes folhas, os troncos castanhos e sobre as flores policromáticas. No céu, aves trissavam e se deslocavam em direção ao Sul. Ela mandou-me sentar num banco, ao lado de uma estátua, e que esperasse pacientemente. Sabia que eu não concordava com a sua decisão. Para mim havia esperança; mas obedeci. Torturada pelas ...

Uma rima

Rimar é estúpido É fútil Só porque soa bem não quer dizer que queira dizer algo Um funil Palavras aleatórias sem conexão Juntas só porque têm a mesma terminação Um carro fuma um charro porque é parvo Eu escolho seguir a lógica Onde tudo faz sentido Tudo estruturado encadeado emparelhado interligado Inter de Milão cão pão chão PARA. Não, recuso-me a pertencer a ti Recuso-me a pertencer a este mundo onde está tudo misturado E não existe Verdade Onde o caos reina e o certo e o errado e o bom e o mau e o mais ou menos e o menos ou mais e o irrelevante e os elefantes aí sim está tudo junto sem separação possível, nem mesmo por um mísero verso.  Mas parece que não tenho escolha Parece que acabamos todos por entrar neste mundo filósofo ou trolha Tanto tempo dedicado à procura de uma Verdade que, Na verdade, é mais frágil que uma folha Mesmo assim, não desisto. Com o resto das minhas forças vou fabricar uma máquina Capaz de analisar, si...

Conto inspirado no conto «Na sexta-feira venho contigo»

Eu não conseguia tirar aquela maravilhosa frase da minha cabeça. Nem sequer consegui aproveitar o meu fim de semana. Não fiz mais nada para além de sonhar com aquele passeio. Não me surpreenderia que depois dele acabássemos casados com quatro filhos e um rottweiler. Domingo à noite, recebi uma chamada da Carolina a perguntar-me se a ida ainda estava nos meus planos. Respondi-lhe rapidamente. Não queria que ela ficasse à espera. Na segunda-feira, durante as aulas não ouvi absolutamente nada do que me disseram. Eu estava tão desconcentrado que entrei por duas vezes em salas de outras turmas. Depois das aulas, eu e a Carolina encontramo-nos à porta da escola. As palavras saíam-me todas trocadas. Ela perguntou-me: - ¿Estás nervoso? - ¡ Oh, como eu estava! - Não precisas de estar. Só vamos juntos para casa. Ela não entendia. Para ela era só uma ida para casa, mas, na verdade, ¡ era uma passo para o nosso futuro! De qualquer forma, acalmei-me. Estava um clima húmido e...

Um concerto

A fila dava a volta ao edifício. Muito lentamente as pessoas iam avançando, e o anfiteatro começava a encher. Estava esgotado, obviamente, afinal, não é todos os dias que se pode ouvir o maior pianista do mundo a tocar ao vivo. Quando finalmente a sala encheu, fecharam as portas e segui-se um silêncio de antecipação. O velho e experiente pianista entrou no palco vagarosamente, acompanhado de palmas pouco barulhentas de modo a não reprimirem o novo silêncio,  que desta vez transmitia concentração e respeito. O pianista sentou-se no piano. Outro silêncio, mas este já fazia parte da música. E, após um longo olhar para a plateia e um ainda mais longo suspiro, o pianista começou a tocar: Acorde de Ré Pausa Si Lá Sol Fá Si Lá Sol Fá Lá Ré Si pausa de meio tempo Acorde de Ré na mão direita e um Lá na mão esquerda Acorde de Fá na mão direita e um Lá na oitava abaixo na mão esquerda Pausa longa Acorde de si pianíssimo  Acorde de Mi Escala de Fá# crescendo Repetição do Fá# ...

O dia mais estranho

Um dia, um professor da minha turma faltou e as minhas aulas acabaram mais cedo, por isso, fui brincar num parque com os meus amigos da escola. Agora, começa a parte negativa desta narrativa. Todos os meus colegas partiram de supetão. Fiquei numa rua que eu desconhecia. Estava sozinho e desnorteado. Não saí de lá. Não havia ninguém por perto, a não ser um bando assustador de motoqueiros. Então, aos tremeliques e sem mais opções, perguntei-lhes se conheciam um banco que havia ao pé da minha casa. Um deles, aproximou-se de mim lentamente e convidou-me para ir dar um passeio com eles. Respondi que não. Insatisfeitos com a desfeita, tentaram pôr-me as mãos em cima. Fugi. Eles perseguiram-me. Enquanto corria, passei por uma loja de tatuagens. Lembrei-me que a minha mãe sempre me disse: - Esses lugares só têm más companhias. Corri até que vi uma esquadra da polícia. Entrei e pedi-lhes indicações para chegar a casa. Bastava que eu mais adiante virasse à direita. Depois reparei ...